O pique-nique trouxe à tona todas as lembranças, tanto as boas quanto as ruins. Trouxe as lembranças vívidas de Jéssica Heartwhite, que descanse em paz, como também trouxe lembranças de minha mãe. Não faz nem um mês que ela se separou de meu pai.
Quando dei por mim, o meu rosto estava ardendo e vermelho, meus olhos, cheios de lágrimas que ameaçavam derramar.
- Chega! - Ele se irritou.
Olhei para Daniel confusa. Ele me observava esse tempo todo?
- Eu não suporto mais! - Ele diminuiu um pouco o seu tom de voz – Por que você não me deixa ajudá-la? Pensei que podia contar comigo para qualquer coisa. Eu quero lhe ajudar como você me ajuda, Lucy -Ele desabafou – Eu quero... - Ele me olhou – Ser útil para você... como você é para mim.
- Quer mesmo? - Eu perguntei – Quer que eu me desabafe com você?
- Sim, por favor – Isso soou como uma súplica.
- Ah, tudo bem então – Eu disse desconcertada, não sabia por onde começar – Bom... eu não sei por onde começar.
- Comece pelo início – Ele encorajou.
- Há alguns anos, nesse mesmo parque. Quando eu tinha uns dez ou oito anos... A minha mãe quis me ensinar como andar de bicicleta... - Eu olhei para ele, ele estava me olhando com um certo interesse, então prossegui – Eu pensei que era normal, quer dizer é normal que os pais queiram ensinar os filhos a andar de bicicleta. Nós tentamos andar... acho que umas duas ou três vezes... e ela fazia aquela promessa que estaria me segurando para eu não cair. E ela realmente estava, mas... quando aquele homem chegou... ela foi correndo até ele e me deixou sozinha... - Eu olhei para ele novamente, ele fez um gesto para eu continuar – Eu caí, e bati forte com a cabeça. Tanto que eu fiquei nocauteada...
Eu parei, acho que eu nunca havia falado sobre isso com ninguém. Ele se aproximou de mim.
- Eu acordei no hospital... com um braço quebrado e com minha cabeça danificada – Eu tentei continuar.
Ele me envolveu com seus braços fortes. Então perguntou:
- E da onde vem tanto rancor que você sente pela sua mãe?
Eu o olhei, as lágrimas que apenas ameaçaram cair, haviam derramado. Então respondi a sua pergunta.
- Você sabe o que ela fazia com aquele homem? - Eu perguntei – Ela estava aos beijos com ele, ela absolutamente esqueceu que tinha duas filhas, e um marido.E ela simplesmente ignorou que naquele dia uma delas podia estar vendo tudo! - Meu tom de voz ficou mais alto.
- Isso não foi tudo... - Eu disse, respirei fundo – Eu bati minha cabeça tão forte... que agora eu sou incapaz de sonhar. - Ele ficou em choque, mesmo assim eu prossegui – Você sabe como é não ter sonhos? É igual a não ter dormido nada, mais ao mesmo tempo, você não pode ver a aurora.
Eu não consigo explicar direito.
Ele ficou chocado com o que eu disse, acho que era muito para ele.
- E ela ainda teve a coragem... de culpar o papai por isso – Eu disse. - Eu me lembro que depois disso... as brigas que já eram ao menos uma vez por semana, se tornou diariamente, eu sempre “acordava” com esses dois gritando entre si. E esse inferno dentro de casa se estendeu durante oito anos. Ela dizia que era culpa da ausência dele, mas para ela, era sempre culpa dele nunca dela própria. É sempre culpa dos outros nunca dela!
Abaixei a minha cabeça. Acho que eu estava rancorosa de mais, ele deve ter me estranhado, eu havia mudado o meu tom de voz, as minhas expressões, era como se eu tivesse me tornado outra pessoa.
Senti ele me dar um abraço mais forte, porém ao mesmo tempo terno e delicado. Nos seus olhos verdes, a chama da curiosidade ainda estava acesa, ele queria saber mais sobre mim, isso ardia em seus olhos, ele estava com medo de me perguntar por que sabia que era difícil.
- Você quer saber, o por que eu e minha irmã não nos falamos mais, não é? - Eu perguntei.
Ele assentiu com a cabeça. Eu limpei as lágrimas e continuei:
- Bem... minha irmã me culpa pela separação de meu pai. Ela diz que se “eu” não tivesse inventado de andar de bicicleta, eu nunca teria me machucado, e eles nunca teriam se divorciado. Ela e o papai nunca souberam que a mamãe o traía, e pretendo que fique assim por favor – Eu lhe pedi.
- Por quê? - Ele perguntou em um tom reprovativo.
- Porque isso faria o papai sofrer, e eu... não quero vê-lo sofrendo... nunca mais – Eu disse.
Abaixei o meu olhar, para os seus braços.
- Mais uma pergunta? - Eu perguntei.
Seus olhos ainda estavam curiosos, eu sabia que isso fora apenas o início de um questionário de perguntas, e não sabia se estava pronta para respondê-las.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
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